O setor de transporte no Brasil enfrenta um momento crítico, com números alarmantes nas solicitações de recuperação judicial. Entre janeiro e abril, foram registrados 638 pedidos, de acordo com a Serasa Experian. Este cenário se intensificou no segundo trimestre de 2025, onde o saldo de processos ativos chegou a um recorde de 4.965 casos, de acordo com o Monitor RGF.
Pressões do Setor
O advogado Cristiano José Baratto, presidente do Instituto de Estudos do Transporte (IET), aponta que a pressão financeira sobre as empresas se deve a uma combinação de fatores. Entre eles, os altos juros, o preço elevado dos combustíveis, a carga tributária pesada e a instabilidade do mercado. As taxas de juros na casa dos 15% dificultam o acesso ao crédito, especialmente para pequenas e médias empresas, limitando sua capacidade de operação.
Descompasso no Crédito
Baratto também destaca um fator crítico: o descompasso entre o \'débito e o crédito\'. Normalmente, os serviços prestados pelos transportadores são pagos de 90 a 120 dias após a prestação, o que compromete seriamente o fluxo de caixa das empresas. Essa dinâmica financeira se torna insustentável em um ambiente econômico adverso.
Importância do Setor
Baratto classifica o setor de transportes e logística como a espinha dorsal da economia. Qualquer falha nesse setor pode desencadear uma série de atrasos e falta de produtos no mercado. Apesar das adversidades, o setor tem conseguido se manter operando, evidenciando sua resiliência.
Casos Emblemáticos
Recentemente, ocorreram casos que ilustram essa pressão. Uma transportadora de carga fracionada solicitou recuperação judicial, com um valor de causa acima de R$ 45 milhões. A empresa atribui sua crise a choques financeiros desde a greve de 2018, que se agravaram durante a pandemia, resultando em oscilações de frete e aumento dos custos.
Além disso, uma operadora logística do agronegócio também pediu recuperação judicial, alegando um passivo superior a R$ 78 milhões. A empresa busca uma proteção temporária para reorganizar suas dívidas enquanto avalia sua viabilidade operacional.
Risco Sistêmico
Baratto alerta que esses casos simbolizam um risco sistêmico para a economia. Uma quebra em larga escala no setor de transportes poderia impactar indústrias e o comércio em geral, interferindo até mesmo no abastecimento de produtos essenciais em supermercados e hospitais.
Necessidade de Ação Rápida
Segundo Baratto, é fundamental que haja uma abordagem sistêmica e proativa para evitar que a situação econômica do país se agrave ainda mais. Ele ressalta a importância de se encontrar alternativas de financiamento com taxas e linhas adequadas que reflitam a realidade do setor.
Adequação Tributária
Outro ponto destacado é a necessidade de promover uma readequação tributária e regulatória, reduzindo o peso fiscal sobre os transportadores. Isso não apenas aliviaria a pressão financeira sobre as empresas, mas também proporcionaria um ambiente mais previsível, permitindo que elas investissem em eficiência operacional por meio da gestão, inovação e tecnologia para reduzir custos.
Esforço Coletivo
Baratto conclui enfatizando que a resolução da crise demanda um esforço conjunto entre empresas, governo e entidades do setor. O momento é de cautela, mas também de busca por ações estratégicas que visem a eficiência e alternativas de financiamento, ao mesmo tempo em que se exigem mudanças estruturais significativas para o setor de transportes.